Santuário Nossa Senhora da Agonia
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Evangelho do dia – Mt 16,13-19

Publicado em 22 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

22/02/2018 – Tu és Pedro! (Mt 16,13-19)

Neste Evangelho basilar para a história da Igreja – que alguns intrépidos têm a ousadia de afirmar que não era “projeto de Jesus” – uma resposta do homem serve de gatilho para uma resposta de Deus. Quando Simão diz: “Tu é o Cristo”, Jesus responde: “Tu é Pedro! Tu és pedra!” E esta rocha [képhas] está no alicerce da comunidade de Jesus.

Como observa François Trévedy, aquele que antes nomeava, ouve agora que é nomeado. “A definição de Jesus por Pedro desata prontamente a de Pedro por Jesus. Pedro é batizado em sua própria resposta, ‘sagrado’ em sua resposta. Pedro vem à existência em sua resposta e, com ele, toda a Igreja: sua resposta é sua certidão de nascimento.

Ao interrogar sobre sua própria identidade, Jesus suscitou Pedro e, através de Pedro, com Pedro, a sua Igreja; em Pedro ele saúda pela primeira vez sua Igreja, que é toda ela a Resposta, é aquela que responde, aquela que corresponde com Cristo. É que toda a Igreja se sustém na resposta, toda a Igreja consiste em dizer ‘Tu és o Cristo’. A Igreja é aquela que responde – conclui Trévedy -, aquela que se dirige a um TU, aquela que resulta imediatamente, como resposta e como esposa, da pergunta de Jesus Cristo proposta ao mundo.”

O questionamento de Jesus ainda ressoa nos ares: “Quem dizeis que eu sou?” A Igreja não tem outra pergunta mais importante a responder. O mundo todo não tem outra resposta mais importante a dar. Quem é Jesus para mim? Um sábio do Oriente? Um ativista contra a dominação romana? Um doce profeta da Palestina? Um homem do povo sacrificado aos interesses da elite da época? Um iluminado entre outros?

A Igreja ouviu Pedro e – com Pedro e em Pedro – repete fielmente sua resposta, intacta ao longo dos séculos: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” E esta resposta tem o poder de reduzir a pó todos os potentados do planeta, de relativizar todos os absolutos do paganismo e desfazer em migalhas todos os ídolos de nosso tempo.

Qualquer Cristologia que ignore a resposta de Simão Pedro se reveste de traição. Repetindo François Trévedy, “a Igreja só existe e se mantém de pé enquanto Confissão, em palavras e atos. A Igreja está em Pedro, começa em Pedro como aquela que confessa, assim como está em Maria e começa em Maria como aquela que consente”.

Orai sem cessar: “Toda língua confesse que Jesus é o Senhor!” (Fl 2,11)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Com. Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Lc 11,29-32

Publicado em 21 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

21/02/2018 – O sinal de Jonas… (Lc 11,29-32)

Deus fala. Diferentes dos ídolos mudos, Deus insiste em comunicar-se com o homem. O primeiro grande “sinal” de sua presença foi a própria Criação: a contemplação do Cosmo, do microscópico ao macroscópioco, deveria bastar à criatura para dobrar os joelhos em adoração, saltando da obra ao Operário, dos vasos ao Oleiro, da argila ao Sopro…

Mas Deus vem falando incansavelmente, ao longo dos séculos, também por meio de seus profetas (Isaías, Gandhi, Luther King…), por meio de sonhos (Abimelec [Gn 20,2ss], José de Nazaré [Mt 1,20ss], Paulo [At 16,9]), por meio dos acontecimentos (o êxodo, o cativeiro de Babilônia, a destruição do Templo, a Shoá, a Segunda Guerra mundial…). Telespectadores atentos hão de ouvi-lo no fundo dos noticiários da TV.

Apesar de toda esta divina comunicação, os racionalistas de cada geração ainda pedem por “sinais”: algo de esmagadora potência que os convencesse sem a necessidade do humilde ato de fé. Foi assim também no tempo de Jesus: como se não bastassem os cegos que viam, os surdos que ouviam, os leprosos purificados, os paralíticos mobilizados, escribas e fariseus exigem de Jesus um sinal definitivo.

Ora, “doutores da lei” que eram, eles deveriam “ler” com olhos de fé a Escritura que ciosamente conservavam. Nela, entre outros sinais, saltava aos olhos a narrativa de um tal Jonas, convocado por Deus a despertar os ninivitas para uma oportunidade de salvação. Em lugar de Nínive (1200 km a Nordeste), Jonas foge para Társis, a Espanha (5500 km a Oeste). Na rota de fuga, acaba lançado ao mar e deglutido por um grande peixe.

No coração (kardia) do mar, na barriga (koilia) do peixe, duplamente sepultado, Jonas reza belíssimo salmo: “O abismo me circunda / algas se agarram à minha cabeça / mas tiraste da fossa a minha vida!” (Jn 2,6-7). Deus ouve e responde, devolvendo à superfície o profeta fujão vomitado pelo peixe.

Eis o sinal: após três dias no ventre da morte (Jn 2,3), voltar ao mundo dos vivos e anunciar a salvação. A figura de Jonas era o tipo do Messias – também ele mergulhado nas trevas de nosso pecado! – que, após ser envolvido pelos vagalhões da morte, ressurge à luz de nossa História para anunciar a Notícia salvadora. Hoje, como naquele tempo, não nos será dado outro “sinal”.

No comentário de Santo Efrém de Nisíbia [306-373 d.C.], “se os ninivitas tivessem desprezado Jonas, teriam descido em vida à mansão dos mortos, como Jonas no ventre do peixe. Como, porém, fizeram penitência, foram resgatados da morte, como Jonas. Assim é em relação a Nosso Senhor: ou bem os homens vivem por sua morte, ou bem morrem por ela”.

Ainda querem um sinal?

Orai sem cessar: “O Senhor reergue os abatidos…” (Sl 145,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 6,7-15

Publicado em 20 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

20/02/2018 – Seja feita a vossa vontade… (Mt 6,7-15)

Uma bela aspiração: que se faça a vontade de Deus. Frase tantas vezes repetida em nossas orações pessoais ou comunitárias! Pena que nem sempre corresponda a um autêntico anseio de nosso coração…

Por exemplo: no brasão de armas da casa real da Inglaterra, pode-se ler o lema: “Fiat voluntas mea” [Faça-se a MINHA vontade]. A vontade do rei, não a vontade de Deus. Algo semelhante ao que narrava um missionário italiano no Japão. Ao ensinar o Pai-Nosso às crianças, e chegando a esta petição, os pequenos japoneses protestaram: – “Não! Ele é quem deve fazer a nossa vontade!” Os minicatecúmenos queriam um Deus semelhante ao gênio da lâmpada: bastava esfregar e o djim comparecia para atender às veleidades do patrão…

Na Suma Teológica, Santo Tomás nos fala dos cinco sinais que podem manifestar a vontade divina para nós: a proibição, o preceito, o conselho, a operação e a permissão. E logo vem à nossa mente que o Criador estabelecera uma única proibição (cf. Gn 2,17), e foi justamente na árvore interdita que o primeiro casal foi procurar alimento. Isto é, minha vontade pessoal se sobrepõe à vontade divina expressa na proibição.

E aqueles fiéis que se insurgem abertamente contra os preceitos de Deus, gravados na Escritura Sagrada ou canalizados através da Igreja? A vontade de Deus fica soterrada por uma visão de mundo personalizada, por preferências e facilidades, por ideologias ou compromissos humanos. Por exemplo, no caso dos abortistas, que ignoram radicalmente o “Não matarás” impresso a fogo na rocha do Sinai.

Pedimos que se faça a vontade de Deus, mas discutimos longamente o estranho conselho que manda “amar os inimigos” (Mt 5,44), pois nos arrogamos o direito à vingança e invocamos o direito arcaico do “olho por olho”. Cravado no madeiro, Jesus perdoa seus algozes e nós… clamamos pela pena de morte…

Precisa mais? Não está claro que perdemos o direito de rezar o Pai-Nosso? Dirigir-nos a um Pai, que é Pai meu e dos outros, inclusive daqueles que eu odeio e dos quais pretendo vingar-me? No fundo, o Pai-Nosso me compromete com uma Vontade que não é a minha!

Creio dispensável uma referência ao quarto e ao quinto sinal, pois as realidades que Deus tem “permitido” em nossa vida são exatamente aquelas que classificamos como desgraças, desastres e fatalidades inaceitáveis. Penso, por exemplo, na revolta de casais que não conseguem engravidar, ou no desespero daqueles que perderam um filho. Como é difícil aceitar – aqui no aquém-túmulo – que Deus possa ter um desígnio mais alto para mim, mesmo que incompreensível no momento!

Um dia, talvez, o Pai-Nosso venha a ser verdadeiro para nós…

Orai sem cessar: “Dirige-me na senda dos teus mandamentos!” (Sl 119,35)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 25,31-46

Publicado em 19 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

19/02/2018 – A mim o fizestes… (Mt 25,31-46)

A grande descoberta de Madre Teresa de Calcutá consistiu em identificar no corpo do mendigo, do leproso, do miserável, o próprio Corpo de Cristo. Este “reconhecimento” é exatamente a novidade de nosso Juízo Final.

Poderíamos falar em uma “teologia do outro”, que oferece um caminho de encarnação pronto a nos salvar de aéreas religiosidades tão comuns à nossa volta. Quem nos fala do tema é Lev Gillet (+1980), pregador e exegeta ortodoxo:

“Muitas vezes, Jesus Ressuscitado se mostra sob o aspecto de um homem desconhecido, para indicar que, daqui em diante, quando o Cristo histórico subir aos céus, será sob os traços dos homens por nós encontrados que sua Pessoa assumirá um semblante terrestre. Bem antes de sua morte, já declara aos discípulos que ele teve fome e sede, esteve nu e doente, foi estrangeiro e prisioneiro, naqueles que nós temos alimentado e saciado, temos vestido e cuidado, acolhido e visitado – e naqueles que tinham estas necessidades, mas para os quais não nos dirigimos. ‘Tudo o que fizestes a um desses mais pequeninos de meus irmãos, a mim o fizestes.’

Deus e suas criaturas jamais serão idênticos. Nós não somos o Cristo por natureza, mas o somos por participação e por graça. Nós somos seus membros. É sob esta forma eu Jesus se torna visível e tangível para nós. A esta geração que se proclama realista e não quer adorar um fantasma, Jesus diz: ‘Vede minhas mãos e meus pés…” (Lc 24,39.) Hoje, nesta terra, ele não tem outras mãos e outros pés a não ser os dos homens. Se tu não podes subir diretamente até Jesus pela oração, sai de tua casa e logo o encontrarás na rua, sob a figura do homem e da mulher que passam.

É neles que nos é dada a possibilidade de um encontro incessante com Jesus. Meu Senhor se manifesta a mim no escritório, na oficina, na loja, no ônibus, nas filas que esperam de pé. Nós encontramos Cristo em seus templos, mas é ao sair desses lugares ditos ‘sagrados’ que ele nos convida a começar a procura e a descoberta de sua pessoa sob os traços de nossos irmãos.

Esta via de acesso é ao mesmo tempo muito fácil e muito difícil. Fácil, pois Jesus está ali, em cada um dos que nos cercam. Difícil, pois aquilo que há de mais comum, mais ordinário, mais cotidiano, exige o mais esforço…

A cada passo, podemos transfigurar os homens, se resgatamos neles a Sagrada Face desfigurada. S. João Crisóstomo diz que o altar vivo e humano estendido em cada rua, em cada esquina, é mais sagrado que o altar de pedra, pois sobre o segundo o Cristo é oferecido, mas o primeiro é o próprio Cristo.
Orai sem cessar: “Não te esqueças do pobre!” (Salmo 10,12b)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mc 1,12-15

Publicado em 18 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

18/02/2018 – Arrependei-vos! (Mc 1,12-15)

Curioso como a expressão “Reino dos Céus”, que aparece na pregação de João Batista e reaparece na de Jesus Cristo, tem sido associada a tanta coisa diferente. Quando se fala nesse Reino, alguns pensam na Igreja aqui na terra, dominante e gloriosa; outros imaginam um planeta pós-revolução, onde os tiranos já foram eliminados e o povo divide pacificamente suas colheitas. É raro, porém, que esse Reino seja associado a… conversão!

No entanto, a associação estava clara nas duas pregações acima citadas: o Reino está próximo, então… arrependei-vos! Entre os que perceberam esta ligação, está Cesário de Arles [470-543 d.C.]:

“O Reino dos céus é Cristo que – temos certeza disso – conhece os atos bons e maus e julga todos os motivos de nossos atos. Também precisamos antecipar-nos a Deus, confessando nossas faltas, e reprimir todos os desregramentos da alma antes do julgamento. Nós nos expomos ao perigo se não sabemos qual é o tratamento a seguir para a cura do pecado. Devemos arrepender-nos antes de tudo porque sabemos que prestaremos conta das razões de nossos erros.

Vejam, irmãos bem-amados, como é grande a bondade de Deus para conosco, tão grande que ele quer perdoar o pecado de quem se reconhece culpado e o repara antes do juízo. Ele, o justo Juiz, sempre faz preceder o julgamento por uma advertência, para jamais ter de exercer uma justiça severa. Se Deus quer tirar de nós um rio de lágrimas, não é sem motivo, irmãos bem-amados, mas para que possamos recuperar pelo arrependimento aquilo que havíamos perdido por negligência.

Nosso Deus sabe que o homem não tem sempre uma vontade reta, e que ele pode muitas vezes pecar em sua carne ou cometer desvios de linguagem. E também nos ensinou o caminho do arrependimento, pelo qual podemos reparar os prejuízos que causamos e corrigir-nos de nossas faltas. Para estarmos seguros de obter-lhe o perdão, jamais devemos cessar de lamentar nossos pecados.

Por mais fragilizada que esteja a natureza humana, em razão de tantas feridas, ninguém deve desesperar, pois o Senhor é de uma generosidade tão grande, que ele distribui sem reserva os dons de sua misericórdia sobre todos que já estão sem forças.

Que ninguém os desvie, meus bem-amados, pois a pior espécie de pecado consiste em não perceber os próprios pecados. Enquanto todos os que reconhecem suas faltas podem reconciliar-se com Deus ao se arrependerem, nenhum pecado merece mais a nossa piedade que aquele que acredita nada ter a se reprovar.”

Uma lição simples e clara. Como disse o sambista, “perdão foi feito pra gente pedir”. Só o orgulhoso se condena…

Orai sem cessar:“No teu grande amor, cancela o meu pecado!” (Sl 50,3)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Lc 5,27-32

Publicado em 17 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

17/02/2018 – Levantou-se e o seguiu… (Lc 5,27-32)

É notável como o Evangelho registra a súbita conversão de um pecador com tal economia de palavras. Um fato que permitiria muitas páginas úmidas de emoção é narrado com a máxima simplicidade. Trata-se da ação de Deus…

Não foi tanto com os olhos do corpo, mas com o olhar interior de seu amor que Jesus viu Mateus em sua banca de cobrador de impostos, observa Beda, o Venerável [+735]. O santo monge continua sua reflexão:

“Ele viu o publicano, amou-o, escolheu-o e lhe disse: ‘Segue-me!’ – quer dizer, imita-me. Ao pedir que o seguisse, Jesus convidava menos a caminhar após ele do que a viver como ele, ‘pois aquele que diz permanecer no Cristo deve também viver como Ele mesmo viveu’ (1Jo 2,6).

‘Mateus se levantou e o seguiu.’ Nada de espantoso que o publicano, ao primeiro chamado imperioso do Senhor, tenha abandonado sua busca de lucros terrestres e, desprezando os bens temporais, tenha aderido àquele que ele via desembaraçado de toda riqueza. É que o Senhor, que o chamava do exterior por sua palavra, tocava-o no mais íntimo de sua alma e ali derramava a luz da graça espiritual para que o seguisse.

‘Como Jesus estivesse à mesa, em casa, numerosos publicanos e pecadores assentaram-se com ele e seus discípulos.’ A conversão de um único publicano abriu o caminho da penitência e do perdão a muitos publicanos e pecadores… Na verdade, um belo presságio! Aquele que deveria ser, mais tarde, apóstolo e doutor entre os pagãos, arrasta atrás de si, quando de sua conversão, os pecadores ao caminho da salvação. E este ministério, que iria desempenhar após haver progredido na virtude, ele o assume desde os primeiros inícios de sua fé…

Tentemos compreender mais profundamente o acontecimento aqui relatado. Mateus não apenas ofereceu ao Senhor um banquete corporal em sua morada terrestre, mas, bem mais que isso, ele preparou um festim na casa de seu coração, por sua fé e seu amor, como testemunha aquele que diz: ‘Eis que estou à porta e bato; se alguém ouve a minha voz e abre, eu entrarei em sua casa e cearemos, eu com ele e ele comigo’. (Ap 3,20.)

Sim, o Senhor está à porta e bate quando ele torna nosso coração atento à sua palavra, seja pela boca do homem que ensina, seja por uma inspiração interior. Nós abrimos a porta ao chamado de sua voz quando damos livre assentimento a suas advertências interiores ou exteriores, e quando pomos em prática aquilo que compreendemos que devíamos fazer.”

Hoje, Cristo continua chamando. O mesmo Cristo que se assentava com os pecadores. Ele insiste em bater à porta…
Orai sem cessar: “Senhor, seguir-te-ei aonde fores!” (Lc 9,57)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 9,14-15

Publicado em 16 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

16/02/2018 – Então, eles jejuarão… (Mt 9,14-15)

Nosso mundo vive um tempo de estranhos contrastes. No hemisfério norte, a obesidade infla a população como autêntica epidemia; já no hemisfério sul, mais de um bilhão de pessoas não consegue fazer uma única refeição por dia. Neste contexto, ainda faria sentido falar em jejum?

Podemos aprender algo importante com João Calvino [+1564]:

“Digamos alguma coisa sobre o jejum, pois muita gente, ignorando sua utilidade, pensam que ele não é necessário. E outros, o que é ainda mais grave, rejeitam o jejum como algo inteiramente supérfluo. Ademais, quando não se conhece bem o seu uso, pode-se fazer dele facilmente uma prática supersticiosa.

O jejum santo e reto visa a três diferentes finalidades: primeiro, para domar a carne, a fim de ela não se anime em excesso; a seguir, para mais bem dispor o coração à prece, à oração e outras santas meditações; enfim, para dar testemunho de nossa humildade diante de Deus, quando queremos confessar perante ele o nosso pecado.

Cada vez que temos de rogar a Deus em comum por alguma coisa importante, é bom exortar ao jejum. Foi assim que os fiéis de Antioquia, quando impuseram as mãos a Paulo e Barnabé, juntaram o jejum à oração (At 13,3). Neste tipo de jejum, eles não tinham outro objetivo a não ser mais bem se dispor e se tornarem mais alegres na oração. De fato, quando o ventre está cheio, o espírito não é muito vivaz para elevar-se até Deus; ele experimenta menos uma ardente disposição para a prece e é menos estimulado a perseverar.

Não entendemos como jejum apenas a simples temperança e sobriedade no beber e no comer, mas algo a mais. Esta restrição situa-se em três pontos: na duração, na qualidade dos alimentos e na quantidade.

Não esqueçamos o que diz Joel: isto é, que o jejum não tem valor por si mesmo, diante de Deus, se não é feito na aflição do coração e se o homem não tem um verdadeiro desgosto de si e de seus pecados, em verdadeira humildade.” [In Institution Chrétienne, IV, 12.14ss, Labor et Fides, 1958.]

Sitiado pelo mundo neopagão, o fiel cristão – mais ou menos inconscientemente – acaba envolvido pelos seus costumes, atitudes e contravalores, entre os quais o gosto pelo luxo, pela abundância, a mesa farta, constantes viagens e todo tipo de comodismos e facilidades. Tais benesses são encaradas como “direitos” a serem usufruídos. Natural, pois, que o jejum se torne uma espécie de dinossauro, coisa antediluviana, impensável na vida moderna. E, claro, o diabo gosta…
Orai sem cessar: “Humilhai-vos na presença do Senhor!” (Tg 4,10)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Lc 9,22-25

Publicado em 15 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

15/02/2018 – Tome a sua cruz… (Lc 9,22-25)

Em tempos de facilidades e de prazeres prêt-à-porter, quando os fornecedores nos convidam à lei do mínimo esforço, esta é a frase do Evangelho que nos parece mais antipática e fora de moda: tomar sua cruz… Desde o início da pregação cristã, a cruz foi objeto de escândalo.

Exatamente o sinal de nossa salvação – a Santa Cruz, que a liturgia chama de arbor nobilis [árvore nobre] – torna-se para o mundo neopagão o símbolo de tudo o que é pesado e detestável. No fundo, enganamo-nos ao pensar que iríamos arrastar a cruz sozinhos, apenas com nosso próprio esforço e suor.

Santo Agostinho [+430] já havia tratado do tema:

“Se alguém quer caminhar em meu seguimento, renuncie a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Isto que o Senhor ordenou parece duro e penoso! Mas, na realidade, não é duro nem penoso, porque aquele que ordena é o mesmo que ajuda a realizar o que ele ordena.

Pois também é verdadeira a palavra do Salmo: ‘Por causa das palavras de teus lábios, eu segui caminhos penosos’. (Sl 17,4.) E é igualmente verdadeira a palavra que ele mesmo pronunciou: ‘Meu jugo é fácil de levar, e meu fardo é leve’. (Mt 11,30.) Pois tudo o que é duro no mandamento, o amor o torna fácil.

Que significa ‘tome a sua cruz’? Que ele assuma tudo o que é penoso: que assim ele me siga. Pois, quando ele começar a me seguir conformando sua conduta aos meus mandamentos, haverá muita gente para o contradizer, muitos para se oporem a ele, inúmeros para o desencorajar. E estes agirão assim a título de companheiros de Cristo. Eles caminhavam com Cristo, esses mesmos que impediam os cegos de gritar. Quer se trate de ameaças, de adulações ou proibições, se queres seguir a Cristo, troca tudo isso pela cruz; tem paciência, suporta, não te deixes abater!

Esta palavra não é destinada às virgens, excluídas as mulheres casadas; às viúvas, excluídas as esposas; aos monges, excluídos os maridos; aos clérigos, excluídos os leigos. É toda a Igreja, todo o corpo, todos os seus membros, diferenciados e repartidos segundo suas tarefas próprias, que devem seguir a Cristo.”

Este não é o tipo de sermão que recebe aplausos de uma numerosa assembleia, reunida em ondas de louvores abstratos. Ele dói por sua clareza, incomoda por sua exigência, decepciona por sua verdade.

Nosso tempo não se destaca pela lógica, é bem verdade… Mas é um notável absurdo a pretensão de seguir o Crucificado jogando no lixo a própria cruz…
Orai sem cessar: “O Senhor redobra o vigor do fraco.” (Is 40,29)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 6,1-6.16-18

Publicado em 14 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

14/02/2018 – Entra no teu quarto… (Mt 6,1-6.16-18)

Em termos de vida de oração, nós somos eternos aprendizes. Dificilmente iremos encontrar alguém que se declare satisfeito com a oração que faz, pois são muitas as barreiras que dificultam nossa relação com Deus.

Hoje, vamos aprender com o monge beneditino François Trévedy, que reflete conosco sobre este Evangelho:

“‘Quando tu rezares, entra…’ Entra. Eis a primeira palavra de Jesus sobre a oração, a primeira etapa do método que ele nos ensina. Entra. Desde já, a direção nos é indicada: é preciso ir no sentido do interior.

Entra. Vale dizer que nós estamos sempre do lado de fora; vale dizer que permanecemos fora por tanto tempo, que não rezamos; fora de nós mesmos, fora da Igreja, fora do mundo, fora de Deus. A oração nos leva a re-integrar nosso Domicílio e nosso Lugar; ela é a Páscoa de fora para dentro. Quando Judas foi para fora, ‘era noite’ (Jo 13,30). Tu também, por mais tempo que fiques de fora, se não te esforças por vir a ser um homem de oração, tu permaneces exilado nas ‘trevas exteriores’ (cf. Mt 25,30). Tão logo rezas, tu entras na luz, pois a luz está dentro.

Durante todo o tempo que ficas de fora, tu experimentas a tristeza. Entras? Eis a alegria! ‘Entra na alegria de teu Senhor’ (Mt 25,21). O irmão mais velho do pródigo, ‘próximo da casa, ouviu música e danças’, mas ele foi tomado de cólera e recusou entrar’ (Lc 15,25.28).

Do lado de fora, só existe agitação: ‘Esforcemo-nos, pois, por entrar no repouso’ do Senhor (Hb 4,11), no grande sábado da oração contemplativa. E seria tão simples entrar! No entanto, isto nos custa; preferimos a exterioridade. Entrar exige esforço. ‘Esforçai-vos por entrar’, diz Jesus (Lc 13,24). E é muito forte o verbo que Lucas emprega aqui: Agônizesthe eiselthein. ‘Lutai para entrar; agonizai para entrar’; a Páscoa pessoal de cada homem para sua interioridade supõe nada menos que uma agonia; um batismo, também, e uma renovação total, pois, ‘a menos que nasça da água e do Espírito, ninguém pode entrar’ (Jo 3,5).

Nós somos para nós mesmos a Terra Prometida, e a entrada tão laboriosa nesta Terra de interioridade constitui todo o drama de nossa história sagrada.

‘E eis que Tu estavas dentro de mim e eu estava fora de mim, e eu te procurava lá fora…’ (Santo Agostinho, Confissões.)

Para que, enfim, nós consintamos em entrar, é preciso que se exerça sobre nós a persuasão – até mesmo a violência – da Palavra do Servo que o Pai enviou com este mandato: ‘Obriga-os a entrar!’ (Lc 14,23).”

[Do livro “Orar em Segredo”, Ed. O Lutador, BH, 2009, trad. de A.C.Santini.]
Orai sem cessar: “Entrai exultantes em sua presença!” (Sl 100,2)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mc 8,14-21

Publicado em 13 de fevereiro de 2018 \\ Evangelho do dia

13/02/2018 – O fermento dos fariseus… (Mc 8,14-21)

Durante a travessia do lago, Jesus dá um inesperado alerta aos discípulos: “Cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes!” Isto equivale a dizer: “Mantenham distância! Cuidado com o seu poder de corrupção! Não se exponham!”

Na Bíblia (com uma única exceção, creio eu: Lc 13,21), a imagem do fermento é símbolo do mal e da impureza espiritual. Tanto que, na véspera da Páscoa, as famílias judaicas deviam pesquisar toda a casa à procura de fermento velho a ser descartado (cf. Ex 12,15.19). A hipocrisia dos fariseus “azedava a massa”, o povo de Israel que Jesus via como “ovelhas sem pastor”.

Eis o interessante comentário da Bíblia de Navarra: “Aqui, a palavra ‘fermento’ é utilizada no sentido de ‘má disposição’. Com efeito, na elaboração do pão, como é sabido, o fermento é que faz levedar a massa. A hipocrisia farisaica e a vida dissoluta de Herodes, que só se movia por ambições pessoais, eram o ‘fermento’ que contagiava a partir de dentro a ‘massa’ de Israel, para acabar por corrompê-la. Jesus quer prevenir seus discípulos contra esses perigos, e fazê-los compreender que, para receber sua doutrina, se necessita de um coração puro e simples”.

Hoje também há numerosos “fermentos” por aí afora, azedando a vida da Igreja. Penso em teólogos já sem fé que propõem interpretações da Bíblia de cunho racionalista, baseados apenas em palpites pessoais ou na ideologia de seu grupo acadêmico.

Penso em moralistas que, com a intenção de “modernizar” a Igreja, assumem posições subjetivas, pragmáticas, mas que ferem frontalmente a tradição apostólica e a herança judaico-cristã.

Penso em pregadores que usam (e abusam!) de seu púlpito para incitar o povo contra os ricos e semear o ódio entre as classes, usando a religião para levantar muros de separação entre as pessoas.

O Apóstolo Paulo não precisou fazer muito esforço para adivinhar esta situação: “O Espírito diz expressamente que, nos tempos vindouros, alguns hão de apostatar da fé, dando ouvidos a espíritos embusteiros e a doutrinas diabólicas, de hipócritas e impostores [...].” (1Tm 4,1-2.) E alerta aos Gálatas com a mesma força: “Ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu- vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema!” (Gl 1,8.)

Ao ler livros e ver filmes que caluniam a Igreja, ao ouvir pregadores heréticos, nós nos expomos ao “fermento” do mal. Teremos a imprudência de correr o risco da intoxicação por esses fermentos?

Orai sem cessar: “Detesto os corações divididos e amo a tua lei, Senhor!” (Sl 119,113)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

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