Santuário Nossa Senhora da Agonia
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Sei quem tu és! (Lc 4,31-37)

Publicado em 4 de setembro de 2018 \\ Evangelho do dia

4/09/2018 – Sei quem tu és! (Lc 4,31-37)

Esta frase, no Evangelho de hoje, sai exatamente da boca de um demônio. Devíamos espantar-nos com isto: o próprio espírito mau reconhece a divindade Jesus Cristo: “Sei quem tu és: o Santo de Deus!”

São Tiago o confirmará, ao dizer: “Crês que há um só Deus? Fazes bem. Também os demônios creem e temem”. (Tg 2,19.) Se o apóstolo queria dizer que a fé que se proclama deve ser acompanhada de obras em coerência com a fé, também podemos concluir que é preciso mais do que “crer” em Jesus: é preciso amá-lo, e não viver a combatê-lo, como fazem os demônios…

O verdadeiro ato de fé acaba coroado por uma entrega a Deus, por um compromisso de vida na difusão da Boa Nova, por uma vida posta sobre o altar, quando nós nos tornamos hóstias vivas em unidade com o Cordeiro pascal. Até lá, nossa fé permanece como uma espécie de noção intelectual, um abstrato exercício da mente. Mas ainda lhe falta algo de essencial para se transformar em vida cristã…

A palavra “fé” (do latim, fides) é inseparável da “fidelidade”. O verdadeiro crente é um “fiel”. Significa isto que ele empenha a palavra – uma espécie de juramento ou profissão pública –, mas também empenha a vida, subindo ao patamar do testemunho (ou seja: mártir). Neste sentido é que os primeiros cristãos, ao pedirem o Batismo, já se declaravam prontos para o martírio!

Voltando à frase do espírito mau, não seria imprópio avaliar que ele tivesse alguma dúvida a respeito da verdadeira identidade de Cristo, enquanto Filho de Deus, e criasse certas situações, tentando forçá-lo a se revelar como tal. Nos primeiros séculos do cristianismo, um Padre da Igreja chegou a defender a necessidade da presença de José, junto a Maria de Nazaré, para que Satanás não conhecesse o mistério de sua concepção virginal, na Encarnação do Verbo.

De qualquer forma, nós devemos nos sentir interpelados em nossa fé. Seríamos nós, os batizados, aqueles que ainda alimentariam dúvidas no coração a respeito de Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, Filho de Deus encarnado?

No mesmo dia em que escrevo esta reflexão, leio nos jornais que o governo da China acaba de prender mais um bispo católico. Estou certo de que este Bispo – Julio Jia Zhiguo, 70 anos – também sabe quem é Jesus. Já passou 20 anos no cárcere e continua fiel, mesmo sob perseguição.

E nós? Já sabemos quem é Jesus Cristo?
Orai sem cessar: “Vossa Palavra é uma luz em meu caminho!” (Sl 118,105)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Aos pobres me enviou! (Lc 4,16-30)

Publicado em 3 de setembro de 2018 \\ Evangelho do dia

3/09/2018 – Aos pobres me enviou! (Lc 4,16-30)

Desde o Antigo Testamento, as promessas falavam de um Messias que seria enviado aos pobres, acudindo aos órfãos, às viúvas e ao estrangeiro (cf. Is 1,17; 66,2; Os 14,3). Neste Evangelho, Jesus de Nazaré acaba de anunciar a seus compatriotas que chegou o “ano da graça do Senhor”, oferecido “de graça” aos pobres de Yahweh.

Em lugar de júbilo e alegria, a reação de seus ouvintes é de ira e furor. Certamente, não se sentem pobres. Não era para eles a antiga profecia… As promessas falavam de um Messias que seria enviado aos pobres, acudindo aos órfãos, às viúvas e ao estrangeiro (cf. Is 1,17; 66, 2; Os 14,3). No entanto, quando se anuncia a ternura de Deus pelos pobres, até a classe média (que não é rica, a rigor) se sente incomodada. Talvez não se sintam pobres… E por isso, sentem-se excluídos…

Ora, somos todos pobres. O rico que não tem fé é pobre. O pobre que se revolta com sua pobreza, também é. O idoso que vai perdendo a força e a saúde, eis o pobre! O milionário que só conta consigo mesmo, como é pobre! Se o pobre que confia em Deus é rico, o homem rico que se tranca a sete chaves com medo do ladrão, pobrezinho!… Frei Raniero Cantalamessa fala de “ricos no tempo e pobres na eternidade”, quando nossos tesouros são apenas as riquezas que passam, e não os valores eternos. Dinheiro, terras e fama, tudo leva o tempo. Só o amor de Deus permanecerá conosco…

Ouvir que Jesus veio para anunciar a Boa Nova aos pobres devia nos encher de alegria e de gratidão! Afinal, não podemos salvar a nós mesmos. Não há boa obra que possa comprar-nos o céu. A salvação será sempre um dom gratuito que manifesta a misericórdia, o “louco amor” de Deus por nós. Assim sendo, somos pobres: é sobre nós que se derrama o rico amor de Deus.

Já é tempo, pois, de mudar de mentalidade! Nós somos todos pobres. Somos miseráveis. E é exatamente a nossa miséria que “faz cócegas” na misericórdia de Deus. Nossa miséria atrai seu olhar de compaixão. Jesus deixou isto bem claro: quem precisa de médico é o doente; ele não veio para os “justos”, mas para os pecadores…

Assim comenta a Bíblia de Navarra: “Por ‘pobres’ deve entender-se, segundo a tradição do AT e a pregação de Jesus, não tanto uma determinada condição social, mas antes a atitude religiosa de indigência e de humildade diante de Deus dos que, em vez de confiar nos seus próprios bens e méritos, confiam na bondade e na misericórdia divinas”.
Orai sem cessar: “Senhor, o fraco se entrega a ti!” (Sl 10,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Seu coração está longe! (Mc 7,1-8.14-15.21-23)

Publicado em 3 de setembro de 2018 \\ Evangelho do dia

2/09/2018 – Seu coração está longe! (Mc 7,1-8.14-15.21-23)

Neste Evangelho, Jesus estabelece um nítido contraste entre o lado de fora (os lábios) e o lado de dentro (o coração). Aquilo que se manifesta exteriormente (as palavras) e aquilo que se oculta no íntimo do ser (os sentimentos e intenções). O que aflora em nós e o que permanece em segredo.

Ora, o grande mandamento não falava de amar a Deus com palavras, com os lábios, mas trazia um imperativo exigente: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todas as tuas forças!” (Dt 6,4) É nossa pessoa integral que se consagra a um amor tão exigente!

Jesus reage às acusações dos fariseus, que apontam no comportamento dos discípulos algumas quebras rituais de preceitos relativos à higiene ou “pureza” alimentar. A correção do Mestre aponta para uma hierarquia de valores: conta mais a alma, os impulsos do coração, do que o cumprimento de rituais exteriores. Em sua pretensão de legalidade, os fariseus acabarão – como diz Jesus – coando as moscas e engolindo os camelos…

Não quer dizer com isto que os sinais externos não tenham nenhum valor, mas que seu valor deriva da coerência entre o lado de fora (gestos e palavras) e o lado de dentro (amor e obediência à Palavra de Deus). Tão ciosos de cumprir os preceitos mosaicos, os fariseus não acolheram o Messias que Moisés anunciara…

Este enquadramento da vida espiritual ajuda a entender que muitos santos, em seu dia-a-dia, fossem pessoas que manifestavam defeitos bem comuns, como impaciências, temperamentos ásperos, fragilidades de todo tipo. No entanto, sua santidade não se baseava em aparências: lá dentro – “no coração”, para usar uma expressão bíblica – lutavam permanentemente contra esses impulsos do homem natural e faziam grandes esforços para corresponder à graça de Deus, pondo-se a serviço do Reino de Deus, servindo a Jesus na pessoa do próximo. Nestes santos, a consciência de serem pecadores estava sempre acima de qualquer aparência de perfeição…

Enfim, Deus lê o nosso coração. Jesus “sabe o que há no homem” (cf. Jo 2,25). Seria insanidade de nossa parte simular uma santidade que não vivemos, tentando aparentar um grau de perfeição que não resiste a qualquer análise, mas se faz apenas de aparências e máscaras. Entre o santo e o beato, há uma enorme distância…
Orai sem cessar: “Senhor, conheceis até o fundo a minha alma!” (Sl 139,14)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Uma cova na terra… (Mt 25,14-30)

Publicado em 3 de setembro de 2018 \\ Evangelho do dia

1º/09/2018 – Uma cova na terra… (Mt 25,14-30)

Os coveiros cavam covas para enterrar os mortos. Quando a alma deixa o corpo, este é devolvido à terra, sem vida, incapaz, agora, de frutificar…

Os dons de Deus, ao contrário, são coisa viva, não podem ser enterrados, cobertos de entulho, mas devem ser trabalhados operosamente para que deem fruto e seu Senhor seja glorificado. Deus quis depender da ação humana!

Neste Evangelho, Jesus narra a parábola dos “servos desiguais”. Três servidores do mesmo Senhor, cada um com a sua capacidade. E cada um deles acolhe um “investimento” de seu Senhor, na medida exata de sua capacidade.

Claro, não há investimento sem risco. O primeiro recebeu cinco talentos e arrisca tudo: trabalha para o benefício do mestre e acaba lucrando outros cinco talentos. O segundo, ao receber dois talentos, trabalha também na medida de sua capacidade e lucra outros dois, aumentando um pouco mais o capital do Senhor.

O terceiro é diferente. Não quer correr riscos. Sua segurança conta mais que o benefício de seu “patrão”. Aliás, ele conhece muito bem o seu “patrão”: vê-o como um homem duro, a ponto de colher o que não plantou, recolher o que não semeou. Assim, é mais seguro, sem riscos, enterrar o único talento recebido e esperar a hora de devolvê-lo, quando o patrão voltar da viagem.

Muito tempo depois (notem aqui a paciência do Senhor, à espera de nosso compromisso!), volta o Senhor e faz o acerto de contas. Aos dois primeiros, elogia e gratifica. Deverão participar da alegria do Senhor. Já o terceiro, ao devolver sujo de terra o talento estéril, sem conseguir disfarçar seu desinteresse pelos “negócios” do Senhor, ouve dele uma frase de condenação: “Servo mau e preguiçoso!”

No mínimo, aprendemos que a preguiça é um mal. Que somos maus se não fazemos frutificar os dons recebidos gratuitamente de um Senhor que se alegra em nos fazer participantes da edificação de seu Reino de amor. Que a omissão não é diferente do crime intencional. Afinal, diante do mal, quem cala… consente… Mas o escândalo dos maus ainda vai aumentar: o Senhor manda que se recolha o único talento do preguiçoso, entregando-o àquele que já possui dez talentos.

Que faria você? A quem confiaria os seus talentos? Ao preguiçoso? Ou àquele que – tudo indica – se dedicará de alma e coração a ampliar o Reino de Deus?
Orai sem cessar: “Trabalhai pela comida que dura eternamente!” (Jo 6,27)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 13,36-43

Publicado em 31 de julho de 2018 \\ Evangelho do dia

31/07/2018 – O campo é o mundo… (Mt 13,36-43)

Pela forma como o próprio Jesus “traduz” sua parábola do joio e do trigo, podemos considerá-la uma alegoria, já que seus vários componentes possuem simbolismos individuados. Temos um semeador, Jesus. Temos a boa semente, os filhos do Reino de Deus. Temos o joio, os que pertencem ao maligno. Teremos, no fim dos tempos, os segadores da colheita: os anjos de Deus.

Hoje, vamos centrar nossa reflexão no “campo” que recebe a dupla sementeira (bem e mal). Este campo é o mundo: um espaço-tempo onde decorre a história da humanidade. Ele nos é apresentado como terra a ser semeada até um desfecho, quando ocorrerá a separação entre joio e trigo.

Os apressados querem fazer JÁ essa separação, sem levar em conta que as duas plantas, quando pequenas, são praticamente idênticas, e inevitavelmente o trigo seria arrancado com o joio. Cuidado, pois, com a atitude impaciente que cobra de Deus uma intervenção imediata, não sabendo conviver – por enquanto – com o joio entre nós. E, claro, dentro de nós também…

Não forçamos a interpretação se dizemos que o Reino dos céus já tem seu germe no reino deste mundo. Tampouco se afirmamos que ele deve crescer, após ser semeado, no decorrer da história, até “amadurecer” o suficiente para a colheita final.

Nesta visão, o provisório (a Criação temporal) já traz em segredo, ocultamente, as sementes da eternidade. E este mesmo mistério inclui a possibilidade de o trigo se corromper em joio, bem como de o joio ser transfigurado em trigo. O santo e o pecador vivem um dinamismo que permite a degradação e a regeneração até o último instante da história. Basta lembrar que grandes santos foram grandes pecadores… e reconhecer que todos nós caminhamos sobre um fio de navalha, do qual certamente cairemos sem o sustento da graça divina.

Quando Jesus convocou seus discípulos, ele o fez com a intenção de que se tornassem, também eles, semeadores no campo do mundo. A missão pessoal do Salvador é estendida à Igreja, “uma humanidade de acréscimo” a Cristo.

Enquanto isso, os moralistas protestam contra a insuportável presença do joio. Os céticos afirmam que “tanto faz”. O evangelizador consagra sua vida a semear a boa semente. Em que time está você?

Orai sem cessar: “Quem semeia entre lagrimas colherá com alegria.” (Sl 126,5)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 13,31-35

Publicado em 30 de julho de 2018 \\ Evangelho do dia

30/07/2018 – Como um grão de mostarda… (Mt 13,31-35)

Duvido que, algum dia, Herodes tenha-se ocupado com um mísero grão de mostarda! Duvido que o governador Pôncio Pilatos tenha dedicado alguns minutos a contemplar os lírios do campo que se espalhavam pelo semiárido… Os poderosos deste mundo não perdem seu tempo com essas ninharias…

Mas o olhar de Jesus percebe o valor das coisas pequenas, ele pressente o seu mistério, lê seu sentido profundo. Mesmo que sejam pardais nos arvoredos, mulheres do povo amassando pão, pescadores lançando a tarrafa! É das coisas mais simples e triviais que o Mestre extrai o ensinamento de sua doutrina.

Foi assim com a aproximação que Jesus fez entre um grão de mostarda e o Reino dos céus. Eis o comentário de Lev Gillet:

“Nós atenuamos esta parábola, nós a enfraquecemos, nós a esvaziamos de seu ‘maximalismo’ quando pensamos no grão de mostarda simplesmente como uma pequena planta capaz de considerável crescimento. E a reduzimos a uma banalidade, uma platitude, se a mensagem que dela extraímos é alguma coisa como: ‘aquilo que é grande, primeiro foi pequeno’”.

- “Mestre – prossegue o comentarista -, tu não disseste que a mostarda é uma plantinha que se torna grande. Tu disseste que ela se torna maior que as hortaliças, que ela se torna uma árvore. ‘Uma árvore’, isto é, uma estrutura que, na concepção e na linguagem comuns (senão na estrita verdade botânica) é completamente diferente de uma planta. E não somente ‘uma árvore’, mas uma árvore tal, que ‘os pássaros do céu vêm habitar em seus ramos’ (Mt 13,32).”

“Tu empregaste um superlativo. E aí está, Senhor, a tua lógica, a lógica de teu Evangelho, a lógica dos contrastes e dos extremos. Tu não nos exortas apenas a nos tornar ‘pequenos’ para acabarmos ‘grandes’ diante de teu Pai. Tu nos exortas a acolher em nós a semente ‘mais pequenina’, a nos lançarmos em um abismo de humildade. E então o grão de mostarda pode tornar-se, em nós, ‘uma árvore’. Não é suficiente dizer que a pequenez é a condição da grandeza. É da extrema pequenez que sairá a extrema grandeza.”

“Esta parábola, Senhor, esclarece poderosamente o teu pensamento. Ele se move entre os extremos. Não se detém nas posições intermediárias. Em ti, não há meias-tintas. Existe um sim que é sim, um não que é não. Tu nos forças a optar entre a luz e as trevas. Tu nos provocas para aspirações e decisões que tendam a um máximo. O mais difícil, o mais alto, o melhor.”

Orai sem cessar: “O Senhor eleva os humildes…” (Sl 147,6)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Jo 6,1-15

Publicado em 29 de julho de 2018 \\ Evangelho do dia

29/07/2018 – Onde compraremos pão? (Jo 6,1-15)

Evidentemente, esta pergunta de Jesus ao apóstolo Filipe não passa de uma provocação. Pão no deserto? Pão para cinco mil homens famintos, sem recensear mulheres e crianças? Pão em uma Palestina onde não havia padarias, pois o pão era fabricado de modo caseiro, no pequeno forno familiar no fundo do quintal?

Mas a pergunta provocativa ajuda a lembrar outro deserto, outra multidão, outro líder seguido no êxodo do mesmo Israel. Ao deixar o Egito da escravidão e ver-se sem alimento no areal infértil (cf. Ex 16), o povo escolhido teve consciência de sua incapacidade para matar a própria fome. É quando o Senhor faz cair o maná, um provisório “pão do céu” que não resultava do suor humano, da terra trabalhada, mas era puro dom, pura graça.

Desde os primeiros tempos, os Padres da Igreja viram na multiplicação dos pães a sinalização da Eucaristia. Um “pão do céu” que seria o alimento e a fonte de energia para uma comunidade de discípulos a caminho da Terra Prometida.

Sim, o Senhor aceita trabalhar a partir de nosso próprio trabalho: os cinco pães de cevada (isto é, de baixa qualidade) que um garoto (um daqueles imprestáveis que a gente nem se preocupa em contar!) trazia na matula. E a partir dessa (miserável) contribuição, Deus entra em ação e faz maravilhas impensáveis.

Não podemos fazer vista grossa para a identidade de gestos e palavras que Jesus adota na multiplicação dos pães e na celebração da Última Ceia: tomar os pães… dar graças [no texto grego, eucharistésas]… distribuir aos convivas… Trata-se do mesmo ritual com que os evangelhos sinóticos introduzem a narrativa da consagração na Ceia e que, na época em que João escrevia seu Evangelho, teria sido adotado na liturgia primitiva.

Teriam percebido aqueles comensais o precioso sinal que Jesus lhes dava? Provavelmente, não. Nossa fome costuma limitar-se ao estômago, sem chegar ao fundo da alma. E se a multidão quer fazê-lo rei (cf. Jo 6,15), seguramente é para ter o pão de graça, ter um milagreiro à disposição, mas continuar a alimentar-se dos “alimentos terrestres” e, enfim, morrer como aqueles que comeram do maná…

Com que pão temos matado a nossa fome?

Orai sem cessar: “Saciarei de pão os seus pobres…” (Sl 132,15)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 13,24-30

Publicado em 28 de julho de 2018 \\ Evangelho do dia

28/07/2018 – Enquanto todos dormiam… (Mt 13,24-30)

Já refletimos juntos sobre esta mesma passagem: o trigo bom e o joio mau crescendo juntos até a colheita, convivendo lado a lado até o dia do Grande Juízo, a colheita da humanidade. E o mistério da paciência de Deus, que parece estender o nosso tempo de conversão…

Hoje, porém, vamos focalizar outro ângulo. Quando foi que o “inimigo” semeou a cizânia sobre a semente do trigo já semeada? Quando todos dormiam… Satisfeitos com o trabalho da semeadura, cheios de esperança de boa brotação, foram todos celebrar, dormindo o despreocupado sono dos justos.

Foi na calada da noite que o adversário se infiltrou. Não havia guardas nem sentinelas. Os cães não ladraram. Quando o dia raiou, o mal estava feito… Faz pensar em nossa sociedade? Faz pensar em nossas famílias? No mínimo, faz lembrar a advertência de Jesus? “Vigiai e orai, porque não sabeis o dia nem a hora!” (Mc 13,35.)

Quem viu a profunda mudança da sociedade brasileira na segunda metade do Séc. XX sabe que todos nós cochilamos. Diante do processo de industrialização, o êxodo rural, a chegada da TV, as mudanças do pós-Vaticano II, nós não fomos vigilantes como deveríamos ter sido. Distraídos, tivemos nossas raízes culturais abaladas, os laços familiares rompidos, nossa própria fé desfigurada.

Os pais rezavam o terço em família, os filhos deixaram de ir à missa, os netos se perguntam que diferença faz casar-se na Igreja ou simplesmente se “juntar”… Isto, em menos de 50 anos! Nós fomos envolvidos por outras vozes. Duvidamos dos valores que havíamos herdado de nossos maiores, pois pareciam meio “quadrados” diante do novo mundo que se avizinhava.

Hoje, sabemos que falhamos. Dormimos enquanto o inimigo semeava o joio. Eis a droga e a violência. A quebra da autoridade dos pais e professores. A invasão dos lares pela TV pornófona. A adoção de toda a libertinagem das novelas. E não é mais possível evitar as lágrimas diante de tanta destruição…

E agora, que fazer? Com certeza, voltar para a muralha e retomar a vigilância. “Vigiai, pois, em todo o tempo, e orai a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do homem.” (Lc 21,36.)

Orai sem cessar: “Mais do que os vigias que aguardam a manhã,

Espere Israel pelo Senhor!” (Sl 130,7)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 13,18-23

Publicado em 27 de julho de 2018 \\ Evangelho do dia

27/07/2018 – Sufocam a Palavra… (Mt 13,18-23)

Neste Evangelho, temos algo especial: o próprio Jesus “interpreta” uma de suas parábolas, cujo sentido mostrava-se hermético a seus ouvintes. E fica bem claro que a “Palavra do Reino” sempre encontrará sérios obstáculos para ser acolhida e dar fruto: a oposição do maligno, nossas próprias futilidades, nossa inconstância, as preocupações mundanas…

Como observa H. Roux, quando recebemos a semente da Palavra, pode ser que nós não a compreendamos, ou a entendamos mal. “O Reino dos céus é proclamado no seio de um mundo hostil. Mas Jesus não nos quis dar uma lista exaustiva das diversas reações do mundo. Ele apenas atrai a atenção sobre o fato de que a Palavra, ao ser pronunciada, no mais das vezes o é com perda total.”

“Mas também ocorre – e isto é um milagre! – que a semente encontre um bom terreno, ao qual era destinada; acontece, mesmo neste mundo hostil, que a Palavra seja ouvida, compreendida, e dê frutos.” Contudo, o mais frequente é a sua rejeição. “Ela veio aos seus – dirá o apóstolo João – e os seus não a receberam”. (Jo 1,10)

“Quando Jesus aparece com a Palavra do Reino – prossegue Hébert Roux -, quando deste modo vem ao mundo o Reino contido em potencial nessa Palavra, oculto e secreto como a planta que existe na promessa desse grão, o julgamento e a graça de Deus se manifestam ao mesmo tempo: o Evangelho provoca a contradição em um mundo onde Satã reina sobre os corações e os espíritos, e é exposto à superficialidade dos entusiasmos fáceis; finalmente, é rejeitado por aqueles mesmos que, de início, pareciam querer tornar-se os seus campeões.”

A conclusão é que a acolhida da Palavra do Reino e a consequente frutificação em nós devem ser vistas como autêntico milagre da graça, mais do que sinal de heroísmo de nossa parte. Por qualquer pequeno motivo (ou pretexto), estamos prontos a sufocar a semente recebida. Envolvidos por um mundo pagão (hoje como antes!), podemos optar pelo dinheiro, pela amizade dos poderosos, pelos aplausos da maioria, pelo brilho do sucesso e tantas outras “preocupações” do mundo.

A palavra “preocupação” pode ser lida no sentido de algo que se antepõe (ver o prefixo “pré”) à Palavra do Reino. Algo que nos “ocupa antes” e, por isso, sufoca a Palavra. Sem abrir mão, sem abrir espaço, não vamos acolhê-la…

Orai sem cessar: “Senhor, conservo no coração tuas promessas!” (Sl 119,11)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.

Evangelho do dia – Mt 13,16-17

Publicado em 26 de julho de 2018 \\ Evangelho do dia

26/07/2018 – Felizes os vossos olhos! (Mt 13,16-17)

Nada pior que a ingratidão! O ditado popular condena o gesto do ingrato: “cuspiu no prato em que comeu”. Se fazemos vista grossa e ouvidos de mercador diante dos dons com que nos cumula o Senhor, cometemos esse pecado. Neste Evangelho, Jesus se emociona. Logo depois de interpretar para os discípulos a parábola do semeador, cujo sentido lhes permanecia obscuro, o Mestre se dá conta de que eles estão ouvindo e vendo aquilo que os justos da Primeira Aliança – patriarcas e profetas – teriam suspirado por ver e ouvir…

São privilegiados – como nós – estes seguidores do novo tempo inaugurado pela encarnação do Verbo de Deus, a nova e eterna Aliança com os homens. Por isso a dupla exclamação: Felizes! Bem-aventurados! E não sabemos se aqueles homens simples, um tanto rústicos, chegaram a perceber os privilégios e favores de que eram objeto…

Nós também somos privilegiados. Vivemos um tempo em que os dons do Espírito Santo são derramados de modo intensivo e extensivo, mais que em qualquer outra época da história. O mínimo que podemos fazer é dar graças a Deus, como em meu soneto “Ação de Graças”:

Senhor, em tudo vejo a tua Graça

Derramada sem conta e sem limite:

Nem esperas que eu erga o olhar e grite,

Pois logo o teu divino Amor me abraça!

 

Tua bondade sempre me ultrapassa,

Teus dons sempre superam meu palpite…

E mesmo que eu me furte, e o Amor evite,

A tua Luz me invade e me devassa!

 

Dou-te graças, meu Pai, e reconheço

Que todos estes dons eu não mereço

E hei de acabar a vida devedor…

 

Mas de tua Graça nunca fazes conta

Nem tua Mão meus débitos aponta,

Pois é cego às faturas teu Amor!

 

Sou grato a Deus pelos favores imerecidos que recebo de seu amor de Pai? Ou ainda estou incluído na lista dos queixosos, que se sentem mal servidos por um Deus indiferente?

Orai sem cessar: “Bendirei ao Senhor em todo o tempo!” (Sl 34,2)

Texto e poema de Antônio Carlos Santini, da Com. Católica Nova Aliança.

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